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diversidade decisão

Estimadores de riqueza: quando usar Chao ou jackknife

# resposta curta

Estimadores de riqueza usam as espécies raras da sua amostra para calcular quantas espécies ainda faltam. Com contagem de indivíduos, use Chao1 ou ACE; com presença em várias amostras, Chao2 ou jackknife. Antes de relatar o número, confira se a estimativa parou de subir com o esforço. Se não parou, ela é uma riqueza mínima, não a riqueza verdadeira.

Com 50 parcelas de floresta tropical, os cinco estimadores lado a lado no R e um parágrafo pronto para a sua dissertação.

A pergunta antes do código

Você coletou besouros com 30 armadilhas pitfall e registrou 64 espécies. A curva de acumulação ainda sobe. A pergunta que a sua dissertação precisa responder pode ser uma destas duas, e elas pedem coisas diferentes:

  1. Quantas espécies existem nessa área? Aqui o número observado subestima, e você precisa de um estimador.
  2. Esta área tem mais espécies do que aquela? Aqui o problema é comparar no mesmo esforço, e o caminho costuma ser rarefação ou extrapolação.

Este post trata da primeira. A ideia por trás de quase todos os estimadores é a mesma: espécies comuns aparecem em qualquer amostra e não dizem nada sobre o que falta. Quem informa são as raras. Se a sua amostra tem muitas espécies vistas uma vez só, ainda há muito por encontrar; se quase todas apareceram duas ou mais vezes, o inventário está perto de completo (Magurran, 2004, p. 87-88).

Antes de estimar, vale ter a curva de acumulação feita e lida. Ela é o primeiro passo, e tem um passo a passo próprio.

Qual estimador de riqueza usar?

A tabela resume o que Magurran (2004, cap. 3) reúne das comparações publicadas. A primeira coluna é o que você tem nas mãos.

A sua situação Use Por quê
Contagem de indivíduos, indivíduos bem misturados entre amostras Chao1 ou ACE Usam espécies com 1 e 2 indivíduos (Chao1) ou com até 10 (ACE)
Presença em várias amostras (armadilhas, parcelas, redes) Chao2, ICE, jackknife 1 ou 2 Usam espécies que aparecem em 1 ou 2 amostras
Indivíduos agregados (muitas espécies em uma amostra só) Chao2 ou ICE, não Chao1 nem ACE A agregação faz os de abundância falharem (Chazdon et al., 1998, apud Magurran, 2004)
Poucas amostras Chao2 ou jackknife 2 Foram os mais precisos com poucas amostras em Colwell e Coddington (1994)
A estimativa ainda sobe com o esforço Relate Chao como riqueza mínima Estimador instável não estima o total (Longino et al., 2002, apud Magurran, 2004)
Amostras de habitats ou trechos de gradiente diferentes Estime por habitat, não junte Os estimadores de Chao supõem amostras homogêneas (Magurran, 2004, p. 89)

Duas observações sobre a tabela. O ACE e o ICE são estimadores de cobertura: separam as espécies raras (até 10 indivíduos ou amostras) das abundantes e só usam as raras para estimar o que falta. E nenhuma linha diz “use o bootstrap”: nas comparações reunidas por Magurran (2004, p. 92), ele foi pior que o jackknife num estudo (Palmer, 1990, apud Magurran, 2004) e mais preciso que Chao e jackknife quando havia muitas espécies raras em outro (Poulin, 1998, apud Magurran, 2004). Não há um padrão que justifique escolhê-lo de saída.

O que cada estimador supõe

Chao1 soma à riqueza observada um termo que depende da razão entre singletons (F1, espécies com um indivíduo) e doubletons (F2, espécies com dois):

$$S_{\text{Chao1}} = S_{\text{obs}} + \frac{F_1^2}{2F_2}$$

Quanto mais singletons em relação a doubletons, maior a estimativa. Quando toda espécie tem pelo menos dois indivíduos, o termo zera e o inventário é considerado completo (Magurran, 2004, p. 87). Chao2 é a mesma conta com uniques (Q1, espécies que aparecem em uma amostra) e duplicates (Q2, em exatamente duas).

Jackknife 1 usa só os uniques; jackknife 2 usa uniques e duplicates. Os dois vieram de estudos de marcação e recaptura (Burnham; Overton, 1978, apud Magurran, 2004). O bootstrap usa a frequência de todas as espécies nas amostras.

Todos supõem que as amostras vêm de uma mesma comunidade e que cada espécie tem alguma chance de ser capturada pelo seu método. E todos dão, no fundo, uma estimativa mínima: Magurran (2004, p. 89) faz questão de repetir esse ponto.

Os estimadores lado a lado no R

O exemplo usa o mesmo dado real do post sobre curva de acumulação: árvores com pelo menos 10 cm de diâmetro em 50 parcelas de 1 ha em Barro Colorado, no Panamá (Condit et al., 2002), que vem no pacote vegan (licença GPL-2).

R
library(vegan)     # versão usada: 2.6-4
library(ggplot2)

data(BCI)                       # linhas = parcelas, colunas = espécies
abund <- colSums(BCI)           # indivíduos por espécie
ocorr <- colSums(BCI > 0)       # parcelas em que cada espécie aparece

c(singletons = sum(abund == 1), doubletons = sum(abund == 2),
  uniques    = sum(ocorr == 1), duplicates = sum(ocorr == 2))
singletons doubletons    uniques duplicates 
        19         13         21         19 

São 19 espécies com um único indivíduo e 21 que aparecem em uma única parcela. Guarde esses números: eles são quase tudo o que os estimadores usam.

Estimadores de incidência: specpool()

R
specpool(BCI)
    Species     chao chao.se  jack1 jack1.se    jack2     boot  boot.se  n
All     225 236.3732 6.54361 245.58 5.650522 247.8722 235.6862 3.468888 50

Leia a saída coluna por coluna:

  1. Species = 225: a riqueza observada nas 50 parcelas.
  2. chao = 236,4, chao.se = 6,5: Chao2. Dá para refazer a conta: 225 + 21² / (2 × 19) × 49/50 = 236,4. O fator 49/50 é a correção para o número de amostras.
  3. jack1 = 245,6 e jack2 = 247,9: os jackknifes somam mais espécies que o Chao2, o que é comum.
  4. boot = 235,7: o bootstrap fica perto do Chao2 neste dado.
  5. n = 50: o número de amostras usado. Confira sempre; se aparecer outro número, a sua matriz não está no formato certo.

A faixa de estimativas vai de 236 a 248 espécies, ou de 11 a 23 espécies além das 225 observadas.

Estimadores de abundância: estimateR()

R
estimateR(abund)
     S.obs    S.chao1   se.chao1      S.ACE     se.ACE 
225.000000 237.214286   7.434824 238.217659   7.118588 

Chao1 dá 237,2 (erro-padrão 7,4) e ACE dá 238,2 (7,1), perto do Chao2. Se você fizer a conta com a fórmula acima, vai chegar a 238,9 em vez de 237,2. A diferença vem da versão com correção de viés que o estimateR() usa, descrita na ajuda da função (?estimateR). Diga no método qual versão usou.

Como checar se o estimador serviu

Um estimador “serviu” quando a estimativa para de depender do esforço. Três checagens dizem isso.

A estimativa estabiliza com o número de amostras?

A função poolaccum() recalcula os estimadores para 3, 4, 5… até 50 parcelas, sorteando a ordem das parcelas. Se a estimativa ainda sobe na última parcela, ela ainda depende do esforço.

R
set.seed(42)  # a ordem das parcelas é sorteada
pool <- poolaccum(BCI, permutations = 100)
res  <- summary(pool, display = c("S", "chao", "jack1", "jack2", "boot"))

# média de cada estimador para cada número de parcelas
estim <- data.frame(amostras = res$S[, 1], sapply(res, function(m) m[, 2]))
round(estim[estim$amostras %in% c(5, 10, 20, 30, 40, 50), ], 1)
   amostras     S  chao jack1 jack2  boot
3         5 159.8 184.8 194.4 206.3 176.7
8        10 182.9 206.3 212.4 222.7 197.4
18       20 202.0 225.8 227.8 238.5 214.4
28       30 212.8 236.2 238.1 248.8 224.8
38       40 220.0 237.0 243.2 249.7 231.4
48       50 225.0 236.4 245.6 247.9 235.7
R
longo <- stack(estim[, -1])
longo$amostras <- estim$amostras
longo$ind <- factor(longo$ind, levels = c("S", "chao", "jack1", "jack2", "boot"),
                    labels = c("Observada", "Chao2", "Jackknife 1", "Jackknife 2", "Bootstrap"))

ggplot(longo, aes(amostras, values, linetype = ind)) +
  geom_line(linewidth = 0.8) +
  labs(x = "Número de parcelas", y = "Riqueza (observada ou estimada)",
       linetype = NULL)
Cinco linhas que sobem com o número de parcelas. A riqueza observada fica sempre abaixo. A linha do Chao fica plana em torno de 236 espécies a partir de 30 parcelas; jackknife 1 e bootstrap continuam subindo até a última parcela.
Figura 1. Riqueza observada e quatro estimadores em função do número de parcelas, média de 100 ordens aleatórias. Árvores de Barro Colorado.

O Chao2 fica em torno de 236 a partir de 30 parcelas: de 30 para 50 parcelas, ele muda 0,2 espécie. O jackknife 2 também se acomoda perto de 248. O jackknife 1 e o bootstrap continuam subindo até a última parcela, e a riqueza observada também.

Os estimadores de abundância e de incidência concordam?

Compare Chao1 com Chao2 e ACE com ICE. Quando os indivíduos estão agregados, muitas espécies aparecem numa amostra só, mesmo com vários indivíduos. Aí os uniques passam muito dos singletons, e os estimadores de abundância falham (Magurran, 2004, p. 90). Em Barro Colorado, são 21 uniques contra 19 singletons, e Chao1 (237,2) e Chao2 (236,4) concordam. Num inventário de peixes de Trinidad que Magurran usa como exemplo, havia muito mais uniques que singletons, e Chao1 e ACE não diziam nada além da riqueza observada.

As metades dão a mesma resposta?

Magurran (2004, p. 94) sugere dividir as amostras ao acaso em duas metades e estimar cada uma. Se as metades concordam com o total, você tem dado suficiente. Uma divisão só depende da sorte; repita 100 vezes.

R
set.seed(7)
metades <- replicate(100, {
  m <- sample(nrow(BCI), 25)           # sorteia 25 das 50 parcelas
  c(specpool(BCI[m, ])$chao, specpool(BCI[-m, ])$chao)
})
round(quantile(metades, c(0.025, 0.5, 0.975)), 1)
 2.5%   50% 97.5% 
211.8 230.7 264.3 
R
mean(metades < 225)                    # metades que estimam menos que o observado com 50
[1] 0.3

Com 25 parcelas, o Chao2 tem mediana de 230,7, abaixo dos 236,4 do total, e varia de 211,8 a 264,3 entre as divisões. Em 30% das metades, a estimativa fica abaixo das 225 espécies que as 50 parcelas de fato registraram. Ou seja: com metade do esforço, o estimador ainda não tinha chegado ao total.

A armadilha: tratar a estimativa como a riqueza verdadeira

O sintoma. O texto diz “a riqueza estimada da área é de 246 espécies (jackknife 1)”, e a figura do estimador, se existe, mostra a linha ainda subindo.

Por que é um problema. Um estimador que ainda sobe está medindo o seu esforço, não a comunidade. Veja a tabela do poolaccum(): com 20 parcelas, o bootstrap estimava 214,4 espécies, menos do que as 225 que você observa com 50. Se a coleta tivesse parado em 20 parcelas, o “total estimado” seria menor do que a riqueza realmente presente. O mesmo vale para comparações: duas áreas amostradas com esforços diferentes terão estimativas diferentes mesmo que tenham a mesma riqueza.

A correção. Mostre a curva do estimador contra o esforço e escolha um que tenha estabilizado. Se nenhum estabilizou, escreva que a estimativa é uma riqueza mínima; Longino et al. (2002, apud Magurran, 2004, p. 94) defendem os estimadores de Chao nesse papel. E nunca estime juntando habitats diferentes: o resultado é a riqueza de uma comunidade que não existe.

Se você está com estimativas que não batem entre si e não sabe qual relatar, é exatamente esse tipo de dúvida que resolvemos numa consultoria.

Erros comuns na escolha

  • Escolher o estimador que dá o maior número. A escolha vem do tipo de dado e da estabilidade, e é feita antes de olhar o resultado.
  • Usar Chao1 com dado de armadilhas somadas. Somar as armadilhas transforma incidência em abundância e esconde a agregação. Se você tem amostras, use os estimadores de incidência.
  • Relatar o número sem o erro-padrão. Sem a incerteza, o leitor não sabe se 236 e 248 são diferentes.
  • Esquecer o limite do método. O estimador só estima o que a sua técnica de coleta consegue pegar. Pitfall não estima a fauna de copa (Magurran, 2004, p. 137).

Até onde os estimadores vão

Os estimadores funcionam bem quando a comunidade é razoavelmente homogênea e o esforço já pegou boa parte das espécies. Eles falham quando a raridade é extrema: em formigas de La Selva, na Costa Rica, nenhum dos três estimadores testados chegou a uma assíntota estável, mesmo com quase 2.000 amostras (Longino et al., 2002, apud Magurran, 2004, p. 93). Em comunidades muito ricas e pouco amostradas, o melhor que você consegue é um mínimo, e isso já é informação útil.

Como escrever o estimador de riqueza na dissertação

métodos
Estimamos a riqueza total com o estimador Chao2, com base na incidência das espécies nas [50 parcelas], porque [os indivíduos estavam agregados entre as amostras / os dados eram de presença e ausência]. Também calculamos os estimadores jackknife de primeira e segunda ordem e bootstrap para comparação (função specpool, pacote vegan [versão], R [versão]). Avaliamos a estabilidade das estimativas recalculando-as para número crescente de amostras, com 100 ordens aleatórias (função poolaccum).
resultados
Registramos [225] espécies. O estimador Chao2 indicou [236,4 ± 6,5] espécies (média ± erro-padrão), e se manteve estável a partir de [30] parcelas. Os demais estimadores variaram de [235,7] (bootstrap) a [247,9] (jackknife 2); o jackknife de primeira ordem e o bootstrap ainda aumentavam com o número de parcelas. Assim, as [50 parcelas] registraram entre [91% e 95%] das espécies estimadas.

Se o seu estimador não estabilizou, troque a última frase por: “Como as estimativas ainda aumentavam com o esforço, consideramos o valor de Chao2 uma estimativa mínima da riqueza”.

Perguntas frequentes

Qual é o melhor estimador de riqueza?

Não existe um vencedor para todo dado. Nas comparações revisadas por Magurran (2004), os estimadores de Chao e os jackknifes ficaram entre os menos enviesados, e Chao2 e jackknife 2 funcionaram bem com poucas amostras. Escolha pelo tipo de dado e confira a estabilidade.

Posso usar estimadores de riqueza com dados de presença e ausência?

Pode, e é o caso mais comum. Chao2, ICE, jackknife 1 e 2 e bootstrap usam só em quantas amostras cada espécie apareceu. Chao1 e ACE é que precisam da contagem de indivíduos.

O estimador pode dar menos espécies do que eu observei?

No mesmo conjunto de amostras, não: todos somam algo à riqueza observada. Mas uma estimativa feita com poucas amostras pode ficar abaixo da riqueza que você observaria coletando mais. Por isso a estimativa é um mínimo.

Posso comparar a riqueza estimada de duas áreas com teste t?

Com uma estimativa por área, não há réplica para o teste. Compare os intervalos de confiança e, se você tem várias áreas por tratamento, estime por área e use as estimativas como resposta num modelo.

Para ir além

Leitura de base: o capítulo sobre estimadores de riqueza do livro Análises Ecológicas no R, gratuito, e o capítulo 3 de Magurran (2004), que compara os estimadores em dados de peixes, besouros e formigas. O artigo de Colwell e Coddington (1994) continua sendo a melhor introdução à lógica da extrapolação.

Referências

  1. CHAO, A. Nonparametric estimation of the number of classes in a population. Scandinavian Journal of Statistics, v. 11, n. 4, p. 265-270, 1984.
  2. COLWELL, R. K.; CODDINGTON, J. A. Estimating terrestrial biodiversity through extrapolation. Philosophical Transactions of the Royal Society of London B, v. 345, n. 1311, p. 101-118, 1994.
  3. CONDIT, R. et al. Beta-diversity in tropical forest trees. Science, v. 295, n. 5555, p. 666-669, 2002.
  4. MAGURRAN, A. E. Measuring biological diversity. Malden: Blackwell Publishing, 2004.
  5. OKSANEN, J. et al. vegan: community ecology package. R package version 2.6-4, 2022. Disponível em: https://CRAN.R-project.org/package=vegan. Acesso em: [dia] [mês abreviado]. [ano].
# como citar este post RODRIGUES, Vinícius. Estimadores de riqueza: quando usar Chao ou jackknife. biodata, 2026. Disponível em: https://biodata.site/blog/estimadores-riqueza-chao-jackknife/. Acesso em: .

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